terça-feira, 14 de janeiro de 2014

FANTÁSTICO - Quadrilhas roubam bancos sem serem percebidas

Furtos já ocorreram em pelo menos 12 estados e o Distrito Federal. Uma das técnicas mais comuns do ilusionismo é a da distração. O mágico desvia a sua atenção para um lado e faz o truque do outro, para que você não perceba nada. Pois bandidos estão usando essa mesma estratégia para assaltar bancos.



O que você vai ver no vídeo é uma espécie de teatro dos ladrões. Uma operação que exige sangue frio, capacidade de improviso e muita cara de pau. A reportagem é de Giovani Grizotti e Marcelo Táil.
Estamos na cidade de Montenegro, Rio Grande do Sul, em pleno horário do expediente bancário. Um homem entra na tesouraria de uma agência e tranquilamente coloca envelopes cheios de dinheiro em uma sacola. Ele se dá ao luxo de dispensar as notas que estão em cima da mesa e vai embora com R$120 mil.
Barra do Bugres, Mato Grosso. Mesma cena: na tesouraria de um banco, um homem recolhe todo o dinheiro que encontra. Enquanto isso, no saguão da agência, funcionários e clientes nem desconfiam de nada. Terminada a limpeza, ele cai fora, com a sacola debaixo do braço. Dentro dela R$70 mil.
“Eles são muito espertos. Parece mesmo uma cena de filme”, comenta uma funcionária.
São furtos que vêm acontecendo em várias partes do Brasil. Diferentes quadrilhas já agiram em pelo menos 12 estados e mais o Distrito Federal.
Os ladrões entram nas agências e saem sem o menor problema, e com o dinheiro. E nem precisam de cúmplices dentro dos bancos. Não tem funcionário envolvido. Não tem violência.
Você vai ver agora como é que eles conseguem isso.
Santa Maria, Rio Grande do Sul. Onze da manhã, agência cheia. Na área dos caixas eletrônicos, no começo do mês, o pessoal na fila cheio de conta para pagar. No andar de cima, o movimento nos caixas ainda é pequeno. Mais um dia de trabalho como outro qualquer... Não é, não.
Vamos ver a câmera na entrada do banco. Faz frio, todo mundo agasalhado, menos um sujeito de boné azul e camisa branca. Atrás dele, vem um homem com um envelope na mão. O homem com o envelope passa pela porta giratória, seguido pelo homem de boné azul. Logo depois, um homem de moletom escuro entra também.
Nos caixas, o homem de moletom escuro, calmamente entrando onde não pode entrar: na tesouraria da agência. A sala está vazia. Sem ser visto pelos funcionários, ele vai para a área dos malotes. Em menos de um minuto, sai de lá com uma bolsa cheia com R$ 300 mil!
Para isso acontecer, foi preciso um trabalho de equipe. Ele só pode entrar e pegar o dinheiro porque os outros dois distraem funcionários em locais estratégicos. Essa é a tática dos bandidos: uma ação coordenada para desviar a atenção de quem deveria estar vigiando o dinheiro.
“Eles chegam, estudam o local rapidamente, e tão logo eles tenham esse estudo realizado, eles desencadeiam a ação”, explica Sandro Meinerz, delegado da Polícia Civil do RS.
O golpe acontece da seguinte maneira: o homem do envelope chama o funcionário que fica atrás de todos os caixas. Alega que tem um problema com a conta. Enquanto eles conversam, o homem do boné azul vai até a caixa que fica mais perto da porta.
Para resolver o suposto problema do homem de envelope, o funcionário vai com ele até outro setor da agência. Aí o homem de boné azul pode distrair a caixa. É quando o terceiro integrante da quadrilha entra na tesouraria. Assim que ele sai, o homem de boné azul sai também.
E aí aparece um quarto integrante do bando. “Ele tem a missão de distrair os vigilantes da agência, tanto é que ele vai conversar com ele, chamar atenção para que o indivíduo saia com a mala com o dinheiro tranquilamente”, conta o delegado Sandro Meinerz.
O homem de boné e o que pegou o dinheiro saem. Depois sai o homem do envelope. E aí o sujeito que distraiu o segurança também vai embora.
“Uma encenação que procura chamar a atenção dos funcionários da agência, distraí-los, para que um dos indivíduos que entra na agência consiga chegar aonde está o dinheiro”, explica o delegado.
Depois que os bandidos se retiraram, sem causar alarde, um funcionário entra na tesouraria e se dá conta do sumiço do dinheiro.
Os bancários correm para fora da agência, mas um dos ladrões já está pagando o estacionamento, e a quadrilha vai embora de carro. Ninguém ainda foi preso.
Poconé, Mato Grosso. Sem ninguém perceber, o homem magro vai para a tesouraria. Ele recolhe o dinheiro: R$ 108 mil.
Enquanto isso, um homem gordo conversa com o funcionário da agência. Ele olha na direção da porta da tesouraria. Entra o ladrão magro. E o gordo vai embora atrás dele. Eles saem pela porta giratória.
Segundo a polícia do Mato Grosso, a quadrilha furtou pouco mais de R$ 600 mil, agindo em várias regiões do país.
“Aqui no Mato Grosso eles ficaram cerca de dez dias até que foram presos. E nesses dez dias eles visitaram 14 agências. Teve cidades que eles foram em mais de uma agência bancária”, revela Flávio Henrique Stringueta, delegado da Gerência de Combate ao Crime Organizado de MT.
O bando, de novo, em Barra do Bugres. Segundo a polícia, um homem de camisa verde distrai uma funcionária, enquanto um de camisa listrada puxa conversa com outro. E o mesmo homem magro do outro furto entra na tesouraria.
“Evidentemente que eles têm um roteiro traçado. E esse roteiro poderá ter alguma alteração, alguma adequação, conforme o momento”, diz Ubirajara Diehl, delegado da Polícia Civil do RS.
É o que acontece em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Enquanto o resto da quadrilha distrai os funcionários, o que a câmera não mostra, outro ladrão tenta levar um malote que está do lado do caixa.
Clientes de verdade estão nos caixas, e ele aproveita para tentar pescar. Isso mesmo, pescar um malote. Usa linha e anzol presos a uma antena de carro. Não consegue e vai embora. Aí, outro integrante vem, fica ali como quem não quer nada. Chega uma funcionária, e quem diz que ele vai desistir? Vai nada. Se debruça no balcão, pega o malote e se manda.
“Eles acabaram por deixar o anzol para trás. Ficou um pingo de sangue no anzol e também uma impressão digital marcada com sangue em um envelope da caixa”, diz Ana Gabriela Becker Gomes, delegada da Polícia Federal – RS.
Nesse dia, a mesma quadrilha atacou uma agência de outra cidade gaúcha, Alegrete. O bandido se estica para pegar o dinheiro. Levou R$ 2 mil em dinheiro e cheques. A polícia federal conseguiu prender um dos ladrões. Outros dois estão com prisão decretada.
Funcionários de agências que foram atacadas admitem falhas na segurança. “O dia a dia mais calmo faz com que a gente se acomode. E aí que esse descuido nos leva a incorrer de repente em algum erro”, declara.
“Como o acesso era livre, era rotina clientes entrarem lá trás: ‘ah, não, vou no banheiro’, ‘ah não vou, está procurando alguma coisa’, não era de surpresa, não era uma coisa que não acontecia”, conta.
“Eu acredito que um sistema de controle através de um sistema digital facilitaria e impediria, porque daí teria que ter um arrombamento e isso chamaria atenção e consequentemente eles seriam flagrados no momento que tivessem tentando acessar”, opina Osnei Valdir de Oliveira, delegado de Polícia Civil de Santa Catarina.
Um funcionário e um segurança chegam a fazer um desabafo. “Você fica pensando que poderia ser diferente ou o que eu poderia ter feito diferente para que isso não ocorresse. Então, isso abala psicologicamente”, declara.
“A gente fica meio abalado, né? Perante a sociedade, a família, tudo, né?”, diz outro.
E assim, de banco em banco, as quadrilhas continuam atacando.
Itajaí, Santa Catarina: R$ 10 mil.
Marechal Candido Rondon, Paraná: mais de R$ 150 mil.
Campina Grande, Paraíba: quase R$ 60 mil.
Em nota, a Federação dos Bancos afirma que esse tipo de furto não é frequente. As agências, diz o texto, controlam o acesso a áreas restritas e que os funcionários são treinados para observar procedimentos de segurança.
A nota diz também que estabelecimentos comerciais com grande fluxo de pessoas estão sujeitos a esse tipo de ocorrência.
Esta semana, em Porto Alegre, O ataque mais recente: R$ 27 mil. Poucas horas depois do furto, três ladrões foram presos pela Polícia em um hotel no centro.
No momento da prisão, a esperteza e a frieza sumiram com a mesma rapidez com que o dinheiro era levado das agências. “Minha família não pode ver isso, não. Pelo amor de Deus”, diz um deles.
“Que vergonha, eu nunca fui preso na minha vida”, declara outro.


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